02 janeiro 2013

30 setembro 2012

ferida ou como eliminar alguém da sua vida

A obra ferida ou como eliminar alguém da sua vida, de Rafael Fernandes, criada entre 2010 e 2011, foi exposta no Palácio das Artes, Belo Horizonte, em junho e julho de 2012, na mostra fotográfica segue-se ver o que quisesse.

A série mostra nove fotografias de um casamento - com data impressa de out/82. São fotos tradicionais da cerimônia religiosa, tomadas dentro de uma igreja decorada com flores e fitas. Na parede do fundo, onde se imagina o altar, alguns quadros com imagens simbólicas. Nota-se, também, a ausência de quadros e estátuas de santos, dando a impressão de não se tratar de uma igreja católica. Reforçando essa leitura, a cerimônia é realizada por dois homens vestidos com terno e gravata e não se vê um padre com batina.

As fotografias mostram os noivos entrando na igreja, os ritos do casamento e a saída. Também aparecem convidados nos bancos de madeira, distribuídos em duas fileiras, separadas por um corredor central.

São fotos em cores, mas tem aparência envelhecida, 'desbotadas' pelo tempo. As imagens não parecem ter nenhum tratamento. O formato é quadrado, aproximadamente 9cm, com cantos arredondados. Estão emolduradas em madeira escura, com margens brancas formadas pela própria parede onde estão fixadas.

Intercalados às fotografias, pode-se ler textos datilografados em papéis com o mesmo formato, tamanho e moldura das fotos, escritos entre aspas, como citações. Mas não há referência de autoria.

O 'susto' da obra fica por conta da ausência do noivo em todas as fotos. Não que ele não estivesse lá. Estava, mas foi cuidadosamente recortado, com um estilete ou tesoura, e retirado delas. Em seu lugar, apenas a silhueta branca. Um vazio, deixando ver a parede atrás.

Segundo o autor, são fotos do casamento de seus pais. Depois da separação do casal, sua mãe fez o 'procedimento cirúrgico', apagou o noivo e guardou-as assim. Recentemente, ele as resgatou e montou a sequencia.

Quando voltei sozinha à exposição segue-se ver o que quisesse, para observar melhor a obra que me havia impressionado na primeira visita, custei a encontrá-la. Não lembrava de sua localização exata, nem da sala, mas não tinha dúvidas de que estava colocada em um canto, como que esquecida na parede. Também não havia nenhuma lembrança das pessoas retratadas nela ou de outras obras próximas, lembrava apenas das pequenas fotos emolduradas, desbotadas e solitárias, num canto da sala enorme.

Enquanto procurava, lembrei de outras fotografias: quando mudei para Belo Horizonte, encontrei, no maleiro de um armário do apartamento alugado, uma série de fotos antigas. Nelas, um casal de velhinhos e várias crianças, em diferentes poses, pelos cômodos do apartamento. No verso de algumas, escrito à mão, mensagens dos netos para os avós. Falavam que sentiam saudades e que as férias com eles foram divertidas. Juntei todas e entreguei na imobiliária, esperando que voltassem a algum de seus retratados. Tempos depois, conversando com vizinhos, soube que eram de proprietários mais antigos, que já estavam mortos. Os filhos e netos moravam em outras cidades. As fotos, certamente, foram para o lixo da imobiliária.

Dessas, também não guardei lembranças dos fotografados, apenas da forma como as encontrei. O maleiro era alto e profundo, o piso feito de cimento, com portas de madeira. Para alcançá-lo, foi preciso subir em uma escada. Abri a porta e lá estavam as fotos, espalhadas sobre o cimento não polido, algumas viradas para baixo, outras não. Limpas e preservadas. Por que teriam sido deixadas para trás? Foram esquecidas, caíram de um álbum? Alguém notou sua falta ou guardava lembranças dos dias em que foram feitas?

Procurando a ferida, ocorreu-me que deveria tê-las guardado e, quando mudei do apartamento, devolvê-las ao local onde as encontrei. Elas pertenciam a ele, eram parte da sombra do maleiro. Outros moradores, quando as encontrassem, criariam sua própria história para elas, como eu criei. E talvez também as deixassem lá quando partissem. Seus personagens, anônimos e silenciosos, renasceriam nas histórias imaginadas de cada novo morador.

Quando encontrei as fotos de Rafael Fernandes, elas realmente ficavam no final da parede, quase no canto. E lá estavam os espaços vazios, onde antes esteve um noivo em dia de núpcias, os cortes geométricos, apagando não apenas seu rosto, mas o corpo todo. Que amor tamanho ou que ódio persistente levou a noiva a esse planejado apagar de vestígios? O que teriam vivido, ou deixado de viver, nos anos que se seguiram às fotos? Estivessem elas inteiras, teriam a mesma capacidade de tocar os visitantes, de os instigar? Ronaldo Entler diz que
A fotografia nos coloca em contato com  a realidade, mas de modo incompleto: atesta a presença do objeto, mas pouco diz sobre ele. Trata-se de um apontamento vigoroso, porém, quase mudo. Ao historiador cabe preencher algumas lacunas para formar um relato sobre essa realidade. Já os artistas percebem nesse “silêncio” um espaço para o imaginário. Não menosprezam a força que liga a imagem ao objeto, mas tiram proveito daquilo que falta. Assumem a precariedade dessa ligação, sem negá-la. E mostram como o desejo é fisgado, não apesar do pouco que a imagem oferece, mas exatamente porque não oferece tudo.1
Parece ser exatamente esse o caso de ferida ou como eliminar alguém da sua vida. Uma obra onde a fotografia, exatamente através daquilo que não mostra -  por uma resignificação não intencional feita pela mãe do autor - torna-se mais eloquente do que sua referência ao real, levando o observador além dele. Nela, não se encontra resposta a nenhuma das perguntas levantadas. Mas,
Sem uma resposta que possa apaziguar definitivamente a pergunta, mais instigante é manter presente a interrogação.2


As fotos expostas podem ser vistas em
http://www.flickr.com/photos/fernandessalves/sets/72157624647483832/


1. ENTLER, Ronaldo. Testemunhos silenciosos: uma nova concepção de realismo na fotografia contemporânea. Revista Ars, nr 8. São Paulo: ECA, USP,2006, p.37
2. Idem, p.39

21 setembro 2012

A vida está em outro tempo
















Por que razão uma mulher como eu tem um lençol estampado com pássaros?, foi o pensamento que tirou Joana da cama pela manhã. Lembrou que Izabel não iria. Vestiu o roupão, que lembrava um quimono, e andou até a cozinha para fazer o café. Não gostou do cheiro do pó. E era pelo cheiro que reconhecia um bom café, arábica, produzido na região da Alta Mogiana em São Paulo ou no Sul de Minas. Além desses, talvez os colombianos, desde que viessem adequadamente embalados, senão perderiam suas qualidades no transporte.

Bebeu o café observando as montanhas. Pareciam difusas, enevoadas. Mas é inverno e seco, não há neblina nessa época... Eram bonitas, ainda assim, mas essas não eram as suas montanhas. Um bem-te-vi cantava insistente, um canto que chegava de longe. Demorou a distingui-lo entre os ruídos da rua, e entre um pio e outro, era um canto de quero-quero que ecoava em seus ouvidos. Não tem quero-quero por aqui... Deve ser um toque de celular. O mau gosto corrente o autorizaria.

Revisou mentalmente o dia anterior: a reunião com a ONG empenhada na preservação das montanhas de minério de ferro, foi positiva. “Por que se empenha tanto na conservação dessas montanhas mortas?”, perguntou um representante das mineradoras presente. Respondeu qualquer coisa, mas de fato não sabia a razão.

Detestava essas reuniões. Sentia-se deslocada nelas. Tinha sempre a sensação de que a convidavam  por conta do peso do nome de sua família, e mal ouviam seus argumentos. Não que a achassem estúpida, talvez apenas acreditassem que seus pensamentos e reflexões não fossem autônomos. O que não era totalmente mentira... Sonhava que um dia pudesse ser despida do seu nome e suas seguranças e jogada na vida nua, sem outras armas que não sua mente e seu corpo. E sonhava tão intensamente que talvez fosse lembrança. Lembrava do cheiro da liberdade. Liberdade que cheira a capim molhado e arranha a pele.

Tomou o resto de café da xícara, que já estava frio. Como não haveria almoço em casa, vestiu-se e saiu para encontrar uma amiga. Iriam conhecer um novo restaurante, inaugurado há poucos dias. Demorou a encontrar o endereço, os nomes das ruas nas placas pareciam embaçados, não os reconhecia. Essa sensação de que a vida está em outro lugar...

Deixou o carro com o manobrista do outro lado da rua, esperou o sinal abrir e desceu da calçada para a rua. Quando levantou a cabeça, encontrou o olhar. Entrou. Estava no universo do outro, a vida suspensa, o silêncio, a busca. Encontro. Lembranças que não eram suas, mas as reconhecia. As montanhas, aquelas! eram as suas montanhas. Conhecia a varanda azul e a cadeira vazia balançando ao fundo, o quero-quero no gramado avisando que chegou alguém, o cheiro do capim molhado... Dois passos depois, terminou a travessia da rua. Não se virou para observar de quem era o olhar que havia cruzado.

Flutuou pelo resto da tarde, voltou para casa e deitou-se logo. "Amanhã colocarei um anúncio no jornal: procuro um olhar entre cinco milhões de olhares”. Adormeceu.

Adoro esse lençol de fadinhas!, foi a primeira coisa que Joana pensou ao acordar. Abriu a janela sem descer da cama. Gostava de ver as montanhas verdes, que chamava de suas, pela manhã. Nos dias de chuva no inverno, cobertas de neblina, davam um pouco de medo, ondulavam como uma serpente fantasma quando o vento soprava. Levantou e atravessou a sala correndo. Sentia cheiro do café que a mãe fazia na cozinha. Queria contar a ela o sonho...

Este conto foi baseado no registro de um diário (apenas um dia). Proposto como exercício de uma aula de literatura do curso Processos Criativos em Palavra e Imagem, da PUC Minas.


Querido diário...

















Acordei. Primeiro pensamento: Izabel gosta de colocar este lençol de passarinhos na minha cama...
Vou para a cozinha fazer café. Acabou aquele pó maravilhoso!
Lista de compras: café (da feirinha natureba). Faço do outro mesmo.
Bebo olhando as montanhas atrás dos edifícios altos. Tem um bem-te-vi cantando próximo.
Banho, roupa e rua. Vou ao trabalho andando, ouvindo Maria Bethania. Romântica hoje...
Chego. Todos em polvorosa. A rede está “fora”! Estamos sem conexão com o mundo externo.
Descubro o problema: a solução vai demorar e não depende de nós. Informo aos que ligam perguntando. Esperar...
O problema da maioria não é o trabalho que ficará por fazer, é passar horas sem internet.
Pego o primeiro livro da pilha de não técnicos. Sérgio Vaz, Literatura, Pão e Poesia“E não acreditem em poetas. São pessoas tristes que vendem alegria”.
Ouço o discurso de um colega, que vem pessoalmente à minha sala, sobre a droga que é a tecnologia.
Concordo e acrescento mais alguns pecados tecnológicos. Sugiro que vá passear na rua ou leia os jornais com os pés sobre a mesa.
Pergunta o que vou ficar fazendo ali. Nada. “Eu vim aqui foi pra vadiar/ vadeia amor/ vadeia”.
Riu e se foi.
Almoço. Saio com duas amigas. Uma está grávida. Ela está mais bonita grávida. Nunca me imaginei mãe...
Vamos a um restaurante que tem comida japonesa, porque a grávida está a fim. Gosto, mas prefiro pratos mais simples. Além da comida, esses lugares me fazem sentir irreal, como se não fosse eu que estivesse ali. Deve ser por causa dos cheiros.
Na saída, o mocinho do caixa olha hipnotizado para nossa outra amiga. Parado, com o troco na mão olhando pra ela, só acorda quando leva uma cutucada da menina do outro caixa.
Saímos bebendo chá de alguma erva cheirosa e rindo da situação.
Tarde normal. Rede funcionando. Trabalho.
No fim do dia, reunião com o cara da empresa que vai remodelar o site do sindicato para o qual colaboro.
Primeira reunião, não o conheço.
Vamos eu e o presidente, que vai para me apresentar, pois é um ignorante assumido na área.
O objetivo é fazer com que eles refaçam todo o site, caro e ruim, que construíram.
É claro que ele não vai querer.
Essas são as horas enjoadas de ser mulher numa área onde os homens se acham donos.
Estratégia, então...
Facebook. Quem é o cara? Homem, branco, pai de família, duas filhas, chama a mulher de esposa e as filhas de princesas.
hum... um Clássico... macho-branco-católico-pai de família-empregado-provedor. Mulher é bibelô: para ser cuidada e apreciada; e meio incapazes, claro.
É o meu modelito preferido para o outro lado da mesa. Teremos o nosso novo site.
Depois uma cervejinha e política. Resolver os problemas da humanidade na mesa de um bar.
Volto para casa. Dia longo. Banho e cama. Último pensamento do dia: talvez já esteja na hora de voltar a pensar  em um namorado...


21 julho 2012

Qual é a sua graça?

“Procurar a expressão, por uma vida inteira que fosse, seria em si um divertimento, amargo e perplexo, mas divertimento...” (Clarice Lispector,  A mensagem)

Quem é essa estranha figura, enganosamente simples, amado, detestado e temido por tantos - mas a poucos indiferente - e que chamamos Palhaço? Ou Clown, se preferir assim?
Melhor talvez, seria começar dizendo o que ele não é. O Palhaço não é um personagem a ser interpretado por um ator, alguém espalhafatoso e colorido que vai por aí animando festas, não é um caridoso de bom coração que anda por hospitais salvando crianças doentes, não nasceu com o circo, não é um desleixado, não é também a figura sempre triste que lhe tentam impor. Não é...

Quem é, então?
Conhecido há 5 mil anos, andou por todos os lugares onde o homem esteve. Tendas, ocas, ruas, praças, teatros e, mais recentemente, o circo. Como Bobo, andou pelas cortes, entre imperadores e rainhas; como Arlequim, Pierrô ou Colombina, da Commedia Dell'Arte, andou pelos teatros do mundo. Fez rir, chorar e emocionou.
Entre os povos nativos da América do Norte foi um trickster sagrado que trazia o riso. Foi Heyokah entre os Sioux, Koshari entre os Pueblos. No Brasil, entre os índios Krahôs, do serrado central, ele é Hotxuá, o Palhaço Sagrado. Sempre muitos, sempre mutante, sempre errante, sempre buscando, nunca definitivo.
Marginal e vagabundo. Esse é o Palhaço.

E o que tanto busca?
Não busca, é buscado. Aquele que se dispõe a ser Palhaço deve encontrá-lo. Ele vive no corpo, no espírito, na expressão, nos panos e formas da roupa que incorpora ao corpo, ele vive nos sapatos e na gravata, vive nas cores que pintam seu rosto. Branco, preto e vermelho: o sublime, o grotesco e a vida; a graça, o ridículo e a paixão. Vive na sua máscara, o nariz vermelho, que mais revela do que esconde. Quem o procura, busca a própria Graça, porque "não nos tornamos Palhaço, nascemos Palhaço. E o revelamos".

A casa errante.
O universo do Palhaço é circular. Ser do mundo, do circo e do picadeiro. Ser em cena. Deixar para trás, em cada partida, a clareira vazia aberta na terra, onde a lona abrigou durante algum tempo seus sonhos e sua intimidade. Mambembe, zambembe. Livre. Ser da praça, circular na rua, de cidade em cidade, encantar a lua. Anjo torto, errado e errante.

“Eu sou enfim a própria coisa que vocês procuravam [...]. E o mais engraçado é que não tenho segredo nenhum”
(Clarice Lispector, A mensagem)




Para saber mais

Livros
Cláudio Thebas, O livro do palhaço
Henry Miller, O sorriso ao pé da escada
Alice Viveiro Castro, O elogio da bobagem

Filmes/documentários
Selton Mello, O palhaço
Federico Fellini , Os palhaços
Letícia Sabatella, Hotxuá

Oficinas
Rodrigo Robleño (Palhaço Viralata), Os caminhos do palhaço
Zildo Andre Vieira Flores (Palhaço Sr. Flores), Ser em cena