21 outubro 2014

A grande questão: quem fica com a riqueza gerada no Brasil?

ahh a História! Essa indomável. Sobre ela já se disse tudo, até mesmo que acabou. Há também as Histórias perdidas, aquelas dos derrotados, já que cabe aos vencedores o seu relato. Há outras sem fim, sempre recontadas a cada fato novo descoberto.

"Ninguém escolhe o tempo em que vive ou o tempo em que morre", refletiu Jacques Mornard, que assassinou Leon Trotsky. 40 anos após o crime, 10 anos após sua morte, a História foi recontada, a começar pelo seu nome, reescrito na lápide, Ramon Mercader.

Por que lembro disso? Porque ninguém escolhe o tempo em que vive. Porque é difícil fazer escolhas hoje que poderão mudar o futuro de milhões. A responsabilidade é imensa. Uma forma de minimizar o erro é o esforço para compreender o tempo presente, tendo o tempo histórico - passado e futuro - como perspectiva. Sim, o futuro faz parte da História. Seremos fruto dos sonhos que sonhamos hoje, dizia Sartre. O que define nosso presente são nossas expectativas do futuro.

Vivemos essa encruzilhada do tempo histórico exatamente agora, quando somos chamados a decidir o futuro do país baseados em nossa História recente, que começa, mais precisamente, em 1.500. Calma, não vou invocar Cabral, o Pedro Álvares. Basta um resumo e um clichê: durante 500 anos fomos um país rico com um povo miserável. Conta-se nesse período, não mais do que três saltos civilizatórios.

O primeiro deu-se com Getúlio Vargas, o pai dos pobres e a mãe dos ricos. Com todas as suas contradições, foram as leis trabalhistas dessa época que, de fato, enterraram a escravidão (contra seus resquícios, lutamos ainda hoje) e permitiram certa distribuição da riqueza gerada nos anos seguintes, durante o Milagre Econômico de JK, os 50 anos em 5. Também são dos anos de Vargas os primeiros passos importantes para a universalização do acesso ao ensino básico, a criação das primeiras instituições com caráter universitário e a criação do Ministério da Educação e Saúde.

O segundo salto civilizatório veio com a redemocratização dos anos 1980, a nova Constituição de 1988, a liberdade de imprensa e de associação e a liberdade partidária. Nesses anos, ensaiamos nossos passos democráticos, criamos sindicatos, centrais e partidos, elegemos e derrubamos presidentes, fortalecemos instituições democráticas e republicanas.

Os partidos que hoje disputam as eleições presidenciais, PT e PSDB, são dessa época. Pode-se dizer que nasceram ideologicamente próximos. No mínio, que não estavam em lados opostos do espectro político... até a chegada de Fernando Henrique Cardoso à presidência da República em 1994.

Desde então, cada partido adotou projetos opostos para o Brasil. O PSDB seguiu o caminho, que chamamos neoliberal, cujos princípios são a desregulação da economia, o estado mínimo, a reserva de mão de obra (desemprego alto para garantir baixos salários) e a concentração da renda (deixar o bolo crescer para depois distribuir, acreditavam os economistas do governo).

Esses princípios foram seguidos ao pé da letra. A economia foi deixada ao sabor dos mercados. As empresas estatais foram privatizadas. Os servidores demonizados como peso morto do Estado.

As consequências são conhecidas. Os juros chegaram a 45% ao mês. O desemprego chegou a 25%, com média anual de 12,6%. O salário mínimo era de $83,00 dólares. Empresas estratégicas foram vendidas a preços irrisórios, em operações envoltas em escândalos e suspeitas de vantagens indevidas.

E o mais importante: a desigualdade social, medida pelo índice Gini, que avalia a distribuição da renda, ficou entre 0,60 e 0,59 (a escala vai até 1. Quanto mais alto, pior a distribuição). Ou seja, o país rico continuava miserável.

A grande questão é: para onde foi nossa riqueza gerada nesses anos do PSDB? Como mostram os números ela não foi para a mesa ou para a cabeça dos brasileiros, em forma de conhecimento. (Além dos citados, outros números são facilmente pesquisáveis no velho almanaque Google ou em livros e papers em bibliotecas).

Justiça seja feita. O PSDB foi o responsável por um passo econômico importante, o fim da híper inflação, a estabilização da moeda.

Nas eleições de 2001, o PT vence com Lula e assume a presidência em 2002, onde se mantém desde então, com Dilma a partir de 2010.

Chegamos assim ao terceiro passo civilizatório de nossa História, os anos do PT. Lula pegou uma boa fase da economia mundial, não há dúvidas. A maioria das economias cresciam.

E então voltamos à nossa grande questão: para onde foi a riqueza gerada nos anos do PT? Cito alguns poucos dados: o Brasil saiu do mapa mundial da fome em 2014. Metade dos brasileiros estão na classe média. 126 campi universitários federais foram criados e, principalmente, foram criados no interior, democratizando o acesso à universidade pública. O índice Gini caiu de 0,59 para 0,50 em 2013. Já somos um Brasil rico com brasileiros menos pobres. A riqueza gerada foi melhor distribuída. E os ricos não tem do que queixar, convenhamos. Basta sair às ruas e observar. A melhor prova é essa, empírica.

Outro fato fundamental. Em 2010, com a crise mundial de 2008 às portas, o céu de brigadeiro se fechou. E Dilma pegou outro cenário econômico. Aqui novamente aparece clara a diferença de projetos de país. Nesses tempos de vacas magras, a conta da retração econômica não foi para os de sempre, como nas crises enfrentadas pelo PSDB. Ao contrário, os empregos foram preservados, o salário mínimo cresceu e o governo Dilma investiu alto em infra estrutura e projetos de formação e inovação - como o Pronatec e o Ciência sem Fronteiras -, preparando o Brasil para um novo salto de crescimento quando a economia mundial se estabilizar.

Parece pouco para quem espera há 500 anos que a História lhe faça um aceno e lhe de uma oportunidade, ainda que tardia. E de fato é. Apenas para se ter uma ideia, só em 2012 o nosso Gini voltou ao patamar de 1964, antes da ditadura. Levamos quase 30 anos para retomar o que a ditadura nos tomou em 21. A História nos ensinou que o erro custou caro.

Não se trata, portanto, de diferenças pontuais ou numéricas apenas. Estamos diante da escolha entre dois projetos de país: um civilizatório e outro, no mínimo incerto, como nos mostra a experiência recente, desde 1994.

O projeto de Dilma e do PT, vimos, garante que a riqueza gerada no próximo ciclo de crescimento tem endereço certo, o endereço de todos os brasileiros. Mas o terceiro salto civilizatório ainda está no ar. Os próximos anos serão decisivos para que ele se complete com perfeição. A História, essa ingrata, nos deve essa. E nós fizemos por merecer.


Matéria publica na revista Observatório do Analista

12 agosto 2014

Réquiem

Ele não está mais entre nós.
Partiu assim... num dia de manhã.

Ela, como todos os outros, não gostava de cerimônias de despedida. E não achava bonitos os acessórios que todos usam em todas as cerimônias de despedida.
Decidiu, na longa noite daquele dia, que os dispensaria.
Deitou seu corpo sobre uma mesa, coberta por um lençol branco que descia ao chão.
As flores recebidas eram calmamente desmanchadas. A pressa não mais fazia sentido. As pétalas e folhas, colocadas em recipientes e espalhadas pela sala.
Sentada nas dobras brancas do lençol, ela costurava nele pétalas e folhas com agulha fina e retroz de linha branca. Os amigos que chegavam para se despedir, sentavam ao seu lado e costuravam com ela, desmanchando o retroz de linha branca.
Ninguém dizia nada. Aquele não era tempo de palavras.
Ao fim da cerimônia, ele repousava sobre um jardim, criado assim... num dia de tarde, a última tarde.
E ela achou bonito. Suave, foi o que disse. Uma palavra para quebrar o silêncio da tarde.
Suave é palavra com asas, que ela levou para voar em todas as outras tardes depois daquele dia.

Antigua - Guatemala

09 fevereiro 2014

Saudade materializada

Quando tudo acabar, os cientistas dizem, sobrarão apenas as baratas. Talvez estejam enganados. Talvez os gerânios também sobrevivam.

A casa agora vazia


25 janeiro 2014

Irmãs

Tenho de vocês memórias inventadas, lembranças de um tempo que ainda não chegou. Tempo em que somos meninas, corremos no gramado molhado de chuva, colhemos figos, pisamos uvas.

Crescemos...

No sábado à tarde, vestidos floridos, sentadas na varanda, sonhamos com o amor. Ele virá. Virá em forma de um beijo que dura uma vida, de filhos que um dia serão homens e mulheres, de filhos dos filhos. Virá na forma de um jardim sempre com flores, da casa que acolhe aqueles que chegam, de lençóis brancos no varal, balançando com o vento. Virá o amor em forma de semente plantada na terra, da espera pela colheita, do vinho vertido com as próprias mãos e do pão sovado na mesa - servido como dádiva. Virá o amor em forma de vida, que será nossa poesia quando o tempo finalmente chegar.

São memórias sonhadas, retalhos recolhidos nos caminhos da lembrança.

Canela - RS

02 janeiro 2013